04 Fevereiro, 2008

Bom Dia

Sete horas e quinze minutos. Horário de Verão. Era o que diziam os noticiários e alguns relógios. Ao passar pelo portão ouvi o que, de certa forma, já esperava: - Bom dia – repetia o porteiro sem pensar, como de costume.
Demorei alguns segundos para dar a reposta que diariamente ele esperava. Passou a pensar e mirou-me apreensivo:
- Bom dia
Bastou um bom dia para que ele seguisse com sua gratificação imutável de todos os dias.
A demora veio de uma conclusão comum: Como poderia ser um bom dia? Por acaso o dia tem que ser bom todos os dias? Todo o mundo tem os dias como bons dias? Ou pior, desejando bom dia o dia obrigatoriamente torna-se um bom dia? Acho que é egoísmo quando se dá bom dia aos vizinhos com aquele sorriso beirando ao maligno, como se o dia de quem deseja estivesse melhor que o dia de quem recebe o bom dia. Mesmo deixando de lado todas as pessoas que definitivamente tem contado nos dedos os dias bons do ano, muitas pessoas não tem um bom dia logo pela manhã. Mas o caso era realmente das circunstâncias daquele dia em questão.
Acordar cedo para fazer um trabalho realmente exaustivo na faculdade. Tão exaustivo que poupo o leitor de saber mais detalhes.
Mesmo achando que não teria mais fim, o trabalho terminou, o grupo dispersou e a faculdade esvaziou. Esse mesmo vazio começava a se evidenciar em meu estômago. Precisava almoçar. Tinha um dia inteiro pela frente. Literalmente uma viagem até o trabalho.
A caminho pensei em trocar umas boas palavras com uma moça – com muito mais de 20 anos – deveras simpática. Foi então que o dia começou a se transformar. Liliane, popularmente conhecida como “salvação dos estudantes”, “segunda mãe”, “Tia”, “Escaninho falante” (alguns alunos divergem quanto à “falante”, “móvel” e “vivo”), “Telefonista”, “Ajudadeira”, e por aí vai, além do carinhoso Lili, é claro. Caso você esteja lendo, senhorita Liliane Oliveira, nunca simpatizei com nenhum destes nomes, apenas com Lili.
É incrível como um bate papo animado, despretensioso pode ser tão transformador. Em segundos estava com um sorriso de coringa fazendo a moça, Lili, etc., chorar de rir. Coitada. Deve chorar de tristeza tendo que me agüentar cinco anos na faculdade. Tecnicamente, apenas 3 anos e meio, já que falta algum tempo pra eu terminar tudo e demorou um pouco para conhecê-la bem.
De lá aquelas brincadeiras de sempre, perguntei da Ma (que também deve ter seus apelidos, mas eu desconheço), o meu amor platônico. Graças a Lili, em um bom dia, quem sabe, eu conheça a Má. Ai, ai, ai... Má... Quando dei por mim, voltamos a satirizar as bombas da publicidade, a dança da teologia e a fineza e educação dos estudantes de jornalismo, inerente à inteligência, é claro. Bicho grilo aqui, louco ali, e o relógio de lá tinha o ponteiro menor ligeiramente a direita do número um (já que estamos falando do ponto de vista dele) e o menor indicava uma posição entre o número sete e oito.
Voltava-me agora aquele vazio do estômago. Lembrei que, da mesma maneira que os filhos de sei lá quem e estudantes de sei bem o que, podem usar o telefone privativo da coordenação. Nada mais justo que telefonar a uma estudante de sei bem o que a troco de um almoço.
Almoço de vó. Algum dia alguém já usou esse adjetivo lembrando daquele almoço excelente, com folhas verdes e lisas, tomates vermelhos e macios, com um arroz especialmente preparado em quatrocentos e noventa e três processos, e para finalizar, uma lasanha de quatro queijos ao molho branco deliciosamente deliciosa? Talvez não, mas acho que vocês conseguem imaginar.
Após o almoço, um papo pós alívio clareou o resto do dia. Sabia que estava atrasado, sentia-me atrasado, mas isso pouco me preocupava. Dessa vez foi o telejornal que informou as horas naquele cantinho minúsculo cheio de altas e baixas de dólares, bolsas, mercados, finanças, quebras, superávits e déficits, notícias em cima de notícias e tudo o que eu realmente absorvi foram as horas e talvez algo sobre um novo caça de mais de 130 milhões de dólares que caiu nos Estados Unidos, ou no Iraque, ou que não poderia cair em terras inimigas. Ou seria em terra alguma? Aliás, não era nada disso, o caça voava e o que caía era a Nasdaq. É, devia ser a bolsa, que também perde e ganha seus 130 milhões de dólares em uma queda.
Saí por aí, calmamente andando com a barriga semi-grávida e a cabeça anestesiada em direção ao ponto de ônibus. Claro que aquele que não era um bom dia ou tinha começado como péssimo ia guardar uma surpresa desagradável como ver o ônibus partir no exato momento em que me aproximo do ponto. Mas parece que eu me enganei. O ônibus chegou justamente no exato momento em que eu cheguei ao ponto. Obviamente ele estava a minha espera. Achei estranho. Talvez achasse mais se o motorista me desejasse bom dia, mas eram quase quatorze horas.
Cheguei a meu destino, parei em um banco bastante cômodo e puxei um livro de capa dura. Iniciei a leitura de um texto sobre uma tal de Nazinha... Onde foi parar aquele trem? Devo ter adormecido. Aquelas vozes altas e anônimas diziam que faltavam minutos pra minha hora de partir.
Parti para meu segundo destino, e como se eu soubesse que o dia estava se transformando por si só, eu também deveria estar. Logo, sentei-me ao lado de uma bela moça (com mais de 20 anos, mas não muito mais) e descobrimos graça na infelicidade. Isso pode parecer comum ao brasileiro. A maioria quase sempre pobre, trabalhadora e achando graça em tudo na vida, parando poucas vezes para reclamar às autoridades incompetentes.
Partículas de fogo se escondiam no ar, enquanto para retirar esse meu incômodo, outras de água começavam a cair e foram celebradas por nós dois como delícia, liberdade e fuga dos padrões sociais. Coitada, fiz a moça chorar, mas ela dizia que era graça. Moça bonita dos olhos da lua casa-se logo logo. Rapaz de sorte.
Para minha surpresa, no trabalho estava tudo indo bem, ninguém sentiu a minha falta, e não poderiam sentir nem se quisessem ter uma vaga lembrança de minha pessoa – meu celular estava, misteriosamente, desligado.
As pessoas estavam solidárias. Ajudamo-nos e fizemos tudo direitinho. Não pareceu um dia de trabalho. Claro que sempre temos nossos aborrecimentos nos trabalhos infelizes, ainda mais quando aqueles que deviam estar fazendo o intelectual gozam o café e digitam com dedos do ventre.
No fim da noite ganho uma carona até de quem não costuma me dar. E nada de ir ouvindo música brega no carro – um reggae de leve quase acústico para relaxar. Depois de um bom papo sobre comidas e guloseimas, possivelmente de vovós, agradeci e dirigi-me ao outro carro em meio a palavras indesejáveis. Meu irmão correspondia o fato. Não falava nem o que eu perguntava.
- O dia hoje está maravilhoso – eu afirmava. E afirmava com certeza, pois um dia maravilhoso qualquer é diferente de um bom dia qualquer.
Ao chegar em casa, não poderia ser diferente, minha mãe fazia o favor de lembrar-me o quanto fui “arteiro” na infância. Chorou de rir. Que dia! Fiz três moças chorarem de rir.
No meu quarto, depois de um dia inteiro diferente, a minha cama não poderia estar ali parada, só me esperando pra dormir. Mas naquela altura, ela me chamava, piscava e pedia o abraço que só eu sei dar. A leitora que sabe, sabe realmente. Pulei na cama e caí em sono com sonhos profundos. Se eram doces, salgados ou azedinhos, eu já não me lembro.
E hoje, num dia de chuva, a muitos e muitos quilômetros longe de tudo e todos deste relato, pude perceber e confessar-lhe, amigo leitor: um dia qualquer pode ser apenas um dia qualquer, mas, com milhões de circunstâncias, minutos incontáveis, oportunidades invisíveis e força de vontade, qualquer dia pode tornar-se um bom dia. Bom dia, bate papo satírico, almoço de vó, caminhada de rei, soneca de príncipe, encontro lunático, trabalho bem feito, carona inesperada, monólogo risonho, lembranças nostálgicas e cama aconchegante. Bom dia!


Uma Pausa


Bom Dia!


1 Comments:

Blogger Marcos Tonelo said...

que texto mais simpático!

1:56 PM  

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